sábado, 27 de fevereiro de 2010
A PALAVRA REDIVIVA (Ema Viana)
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
PASSAGEIRO (Ema Viana)
Larga o todo-dia-tudo-igual
Pára para não encontrar-te em confusão
De ser balança-de-dois-pratos
E viver a pesar a pesar apesar
O mundo não é um armazém
A despeito do muito que há em comum
E tu não vales o que o gato enterra
E queres dar-te importância
Colocando-te acima da ordinária existência
Não és sequer conhecedor de ti mesmo
E vens pretensioso dizer que me conheces
Deixa-te, isto sim, afogar nas sujas águas do cocó
Ou pula de um alto edifício do centro da cidade
Não encontras explicações, bem o sei
Mas também não há quem as encontre
Embriaga-te o curso das coisas
O fluir de tudo, sempiterno
Enquanto a tua alma se dilacera
E o teu corpo se deteriora
Continua
O correr das águas dos rios
O mar monotonamente vem despejar-se
Nas areias tantas de tantas praias
Dia e noite se sucedem
Continua o riso o choro
O amor o ódio o belo o feio
Deus e o diabo
Continuam
domingo, 1 de novembro de 2009
UTILITARISMO (Ema Viana)
Exponho meu coração.
Leiloá-lo, eis seu uso.
Ele: torto parafuso.
-
domingo, 25 de outubro de 2009
BALADA DE UM ESQUISOFRÊNICO MEGALÔMANO (Ema Viana)
os astros me vendo passar
cochichavam
interjectivos
"é aquele
aquele lá
pretensão a dele
querer irradiar luz semelhante à nossa
coitado pobre coitado"
também as trevas me vendo passar
"obscuro
fogo-fátuo
sim
tão pretensioso
pensa o vazio e é tão cheio
não é dos nossos"
solucionar-me no intermédio
buscando sempre
I M P O S S Í V E I S
-
AMEAÇA (Ema Viana)
Tanto tudo o que a ti peço
Mas aqui e agora confesso
Não me faças do vão sonho
Cessar o curso risonho
Que sou capaz e te esqueço
-
FILHO (Ema Viana)
não há porquê nem onde, quando ou como.
é no atemporal espaço horizontal dos abraços,
no sem-razão,
onde todo o nosso ser
carne estrangeira,
e habito o não-ser
que vai de mim para você.
-
BEIJO (Ema Viana)
sábado, 24 de outubro de 2009
CONSCIÊNCIA (Ema Viana)
sábado, 3 de outubro de 2009
PROCURA (Ema Viana)
De te ver. E a tua, minh'alma reclama.
Quer te ter aqui quem a ti tanto ama,
Quem contigo sonha há já um ano.
Se tanto amar, amor, não for humano,
A mim, destruir-me há de ardente chama.
Rogo-te: escuta e atende a voz que clama,
Retém-me c'os olhos o olhar cigano.
Meu sonho, deixa-o fluir lentamente,
Permita-me que siga a procurar-te,
Hoje e sempre, sim, incansavelmente,
Em todos os lugares, por toda parte.
E um dia quem sabe esta busca insistente
Finde e queira Deus que por encontrar-te.
-
FILHA (Ema Viana)
Promessa de luz a romper o véu
Das noites fundas que a vida era
Naquela tarda baça primavera.
Crescendo teu brilho foi e por encanto
Tomou os espaços todos. Entretanto,
Havia negro um ponto resistente
A quem contra a barra dele tente.
Então sem muito empenho o presente
Daquele que era já um quase-incréu,
Foste entretecendo suavemente
E num hoje similar a um antecéu
Coabitamos sem o renitente
Negrume por força do teu cinzel.
-
CÁRCERE (Ema Viana)
Na dura mão do inexorável fado,
Que o caminho já nos deu... Certo ou errado?
Toda dúvida de que feito fomos.
Nos deuses todos do Olimpo onde pomos
O nosso sobe-e-desce projetado.
E mais: crer um dia ver saciado
O desejo de infinito que hoje somos.
Crer na nobre medieval missão
E nos cavaleiros do Grande Rei
Que viviam o Graal a procurar.
Ver-me preferia nesta ilusão
Enfim consciente de que escapei
Do exíguo cárcere de pensar.
-
Caetano Veloso (Phono 73)
Um bom exemplo do que é texto sincrético, para cuja elaboração concorre um cojunto de linguagens que se imbricam de modo a criar um efeito de sentido geral, que dá unidade ao todo.
-
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
LÓGICA INFANTIL (Ema Viana)
- hoje é amanhã!
- hoje é amanhã!
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
ESTAÇÕES (Ema Viana)
as alegrias primaverarei
para depois outonarem-se
virão inverno e verão
e outras alegrias primaveradas
hão de outornar-se
são as estações do meu ser temporal
sucedem-se sem descanso
nos anos vivicíclicos
POEMA DES-CARTESIANO (Ema Viana)
domingo, 30 de agosto de 2009
TROCA (Ema Viana)
trazem a flor do sexo
em franca exposição
prometem-lhe
algum regalo
amor etéreo
devoção
em troca
só lhe dão
solidão
segunda-feira, 20 de julho de 2009
A arte, de um modo geral, é equilíbrio de excessos e insuficiências. O artista do "mais" opera recessivamente com o "menos", ao passo que o do "menos" presta contas ao "mais". E ambos buscam o efeito sensível da modulação destes contrários. O grande artista cria equilíbrios instáveis que tensionam excessos e insuficiências de toda ordem e produzem "buracos no não" gerando os possíveis impossíveis e os impossíveis possíveis. O grande artista fura o cerco e nos conduz sem dizer para onde nem responder por quê. O grande artista se funda a si mesmo por seu fazer, e este nos co(n)funda na fruição que em nós nos inaugura.
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sábado, 18 de julho de 2009
PAVLOVIANA (José Paulo Paes)
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Um impossível possível: em quatro segmentos, cada qual composto por três "estrofes" de três versos, com sintagmas nominais simples (artigo + nome substantivo), o autor fala dos automatismos (reflexos condicionados) nas dimensões física, espiritual, política e estética.
Guimarães Rosa (o pensador e o artista)
Siga-se, para ver, o conhecidíssimo figurante, que anda pela rua, empurrando sua corrocinha de pão, quando alguém lhe grita: - "Manuel, corre a Niterói, tua mulher está feito louca, tua casa está pegando fogo!..." Larga o herói a carrocinha, corre, voa, vai, toma a barca, atravessa a Baía quase... e exclama: "- Que diabo! eu não me chamo Manuel, não moro em Niterói, não sou casado e não tenho casa...".
segunda-feira, 13 de julho de 2009
TAMBOR (Ema Viana)
mas os tambores renunciam
aos excessos da alegria
o tambor já foi triste
pulsação
falar percussivo do coração
já foi banzo
cantou tristezas e alegrias
falou com deuses
festejou chorou esqueceu
o tambor quer
as antigas suas linguagens
quer sair
do popular tambor pra pular para parolar
noutras linguagens
do percussivo coração
CALEIDOSCÓPIO (Ema Viana)
meu coração dividido
caleidoscopizou-se ainda mais
meus pais têm um naco
outro anda em meu peito
pedaços nas mãos de amigos
amores outros detêm
grande parte porém
putrefaz-se morta nas ruas
LUA E CHÃO (Ema Viana)
passeava sonhos fabulosos
viagens intergalácticas
suaves voos de pássaros
braços de bem-amada
a inteiro envolver-me
num acalanto sem par
súbito
os olhos me vão
da lua ao chão
o pé direito
tenho-o imerso
em ignorada substância
de amarelo aspecto
pisei no cocô
pisei no cocô
e não sei que fazer
água por perto não vejo
não vejo pano ou sabão
com que me possa limpar
pisei no cocô
enquanto sonhava
pisei no cocô
e estava descalço
pisei no cocô
e não sei que fazer
amiga me diga
amputo este pé
ou pisando na merda
aprendo a viver?
FARTA POESIA (Ema Viana)
brincadeiras de pensar
sinestesias
metaforizar
maresia
dói e corrói
o ferro
de todo dia
perartice do poema
farta poesia
domingo, 17 de maio de 2009
IMIGRAÇÃO (Ema Viana)
O homem antes nordeste
Em desaprumo em desatino
Vai viver sudestino.
CIRURGÊNCIA (Ema Viana)
Recendiam
No
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BURACO NEGRO (Ema Viana)
que o oco do mundo
nos tragou
foi todo tão luminoso
o caos gozoso
que brilhamos
foi tão oco o todo breu
que o brilho esmaeceu
e nos insulamos
foi enfim tudo tão sem fim
que agora em mim
é sempre amanheceu
-
SONETO FALHO ou SÓ NOTO DOIS QUARTETOS (Ema Viana)
o excêntrico gosto por sonetar
mas sei que esta forma particular
trasmuta sublimando o que vivi
dá-lhe o acabamento necessário
extrai do vivido a forma pura
assim como o escultor a escultura
faz nascer do material precário.
-
sexta-feira, 3 de abril de 2009
ALFA & ÔMEGA (Dimas Carvalho)
O homem vivo é caveira que chora,
O homem morto é caveira que ri.
segunda-feira, 23 de março de 2009
sexta-feira, 20 de março de 2009
O QUERERES (Caetano Veloso)
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
ah!
ah!
e
e
e
e
construir-nos dulcíssima
e
e
ah!
ah!
e
e
e
o
do
faz-me querer-te
e
e, querendo-te,
