sábado, 26 de novembro de 2016

POESIA DO COTIDIANO

Seu Zé Cláudio, 93 anos,
sem muita instrução formal,
confrontado com um
"tudo bem, seu Zé Cláudio?",
põe a pergunta noutra chave
respondendo macio e afiado:

Tudo é bom!

-

sábado, 6 de agosto de 2016

A GRANDE JOGADA (Ema Viana)

jogador joga jogo
jogo jogado joga
jogado jogador
jogador de jogado
jogo jogador joga
e jogo joga jogo
jogando jogador


-

sábado, 30 de janeiro de 2016

A LUCINAÇÃO (Ema Viana)

A nação é testemunha
Vitálício da mumunha
Larápio-mor, sua alcunha
Já não engana o tal Cunha

Pra esquecer essa vergonha
O Brasil inteiro sonha
Com a lei que lhe proponha
Cigarrinhos de maconha

-

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

ANTILÓGICA DA MAIS-VALIA I (Ema Viana)

se
no produssumo
o humano sumo
é numo e numo
então
a poesia
a cada dia 
é mais valia

-

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

DINÂMICA DA CONCENTRAÇÃO (Ema Viana)

uns sempre                  
outros não deixam de  
outros ainda
                     às vezes sim
                     às vezes não          
para que
os que nunca            
continuem a                        
e os que sempre  
não deixem de          

-

sábado, 26 de setembro de 2015

LEITURA (Ema Viana)

Sugestão para alguns estudantes das Ciências Humanas

                  para 
de ler sem parar
                  para
                  parar
                  para ler


sábado, 29 de agosto de 2015

ANVERSO (Ema Viana)

averso a verso avesso ao verso do anverso do averso verso



terça-feira, 7 de abril de 2015

PASSAGEM 2 (Ema Viana)


do direto direito ao verso averso

-

PASSAGEM 1 (Ema Viana)


do direto direito ao verso avesso

_

quinta-feira, 1 de maio de 2014

MUSICORDANÇA (Ema Viana)

é música o corpo que dança
musidança o corpo mudança
e o corpo que música e dança
em musicordança se trança


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

ODISSEIA DO INSTANTE (Ema Viana)

Como reteso dardo que se brande
Ante horda de inimigo espicaçada,
Com a cabeça encimando haste grande,
Vibra pela ferida desejada.

Contra a fenda de lábios excitada,
Logo investe com a sua rubra glande
E, numa cega e primeira estocada,
Mais o seu volume flâmeo se expande.

Depois, em mão nervosa beligera
Procurando oponente imaginário,
Hirta-se, faz-se gládio, vira fera

E cumpre obediente o seu calvário
Até o espasmo-fim em que se adultera
No lacteo que lhe sela o obituário.

-

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

CONVERSA FIADA (Ema Viana)

Aí o discípulo perguntou:
- Mestre, o que é o "eu"?
- O "eu" é antes de tudo um "ele" que "você" ilude e pensa muito conhecer.

-

sábado, 6 de julho de 2013

IRACEMA (Ema Viana)

Mira a cena
Iracema da América
Resolve voltar
É piracema

Ipanema
Cinema
E televisão
Iracema
Não quer mais não
Ela vai voltar
É piracema

Iracema
Irá, irá
De volta
De volta pra lá
Pra sina daquele lugar
É piracema

Iracema
Será, será
Silêncio lírico
No Ceará
'Stata à beira-mar

A mirar
A mirar

É piracema

É piracema-ma-ma
É piracema-ma-ma-ma-ma...

-

quarta-feira, 22 de maio de 2013

EDUCAÇÃO (Ema Viana)

nas humanidades
mais do que formar
a educação deve
de-
formar
a p'soa.

-

domingo, 5 de maio de 2013

LIÇÃO DE LINGUÍSTICA (Ema Viana)

É certo que a língua
É coletiva e abstrata
Mas a língua viva
No concreto dela mesma
É a que passa pelo corpo
É a do cuspe privado do indivíduo.

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domingo, 7 de abril de 2013

ADEUS AO EU (Ema Viana)

                                                                                                                                             Para José Ney

Antes e sempre
Proferir-te como farsa
Eis a tua arte
 

Ser outro em cada canto
Diverso e mesmo para cada um
Fragmento e estilhaço


Depois e sempre

Ser do todo uma parte
Ou parte entre todos
Um todo
talvez à parte
Ou
quiçá 
Parte sem do todo ser
Ou desejar
Eis a tua busca

Ver demais, a tua dor


Que potência no outrar-te
Sendo muitos
Sendo um
Sendo sendo
Nem um
Nenhum
Nada
Nada
Tudo
Todos

Uno
Uno 
Uno
Uno

Dois de ti
Um no não
Um no sim

Noves fora

Tua saída
Mergulhar no todo-nada
Que é da vida


Um no Uno
Uno Uno
Enfim

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terça-feira, 26 de março de 2013

ARTES (Ema Viana)

Arte do espaço, a pintura
O tempo, dizer procura
          Em vão
Do tempo a música é a arte
Que com o espaço comparte
          Em vão
Signar tempo com espaço
Num vice-verso compasso
          E não
Parecer algo impostura
Mal logra a literatura
          Ou não

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domingo, 30 de dezembro de 2012

MULHER (Ema Bessar Viana)

Sem razão aparente, é a mercê
Da evidência do existir você
Que me leva, sei e não sei por quê,
Ao sabor de saber valer viver.

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sábado, 6 de outubro de 2012

A SEMIÓTICA ENTRE A SENSAÇÃO E A INTELECÇÃO

A semiótica, na versão tensiva de Zilberberg (a meu ver, complementar à semiótica clássica), retoma Merleau-Ponty, presente já no Semântica Estrutural de Greimas, e articula Cassirer, Deleuze e Valéry para desenvolver uma mínima iteligibilidade do sensível. Da Imperfeição e Semiótica das paixões, ambos livros do mestre lituano, vão no mesmo "sentido". Todos tentam critérios mínimos para compreender as condições de possibilidade do sentido, a partir do sensível, ou investigam o sentido do sentido, como é comum se dizer entre os semioticistas. Pensar o sentido nas suas nascentes é tentar traduzir o sensível em inteligível: tarefa sempre inacabada ou por começar. Fora desta ilusão de "cientificidade", entendida como projeto de conhecimento, há o vivido, isto é, as fricções, os atritos entre a carne-mente-espírito do homem e a carne-mente-espírito do mundo. O intelecto descontinuíza e estabiliza para organizar o inorganizável e a sensibildiade desestabiliza e continuíza  para desorganizar o organizado... Não tem fim... Estamos condenados a fazer sentido, mesmo que seja pela negação dele, e toda a liberdade possível acontece condicionada pelo sentido já feito e abre-se para o ainda por fazer.

-

terça-feira, 7 de agosto de 2012

NEGUIM ADOTA NEGÃO ou O MENINO É PAI DO HOMEM

Para Pedro Arthur e Garcia
Pode a carne até não ter
E seu sangue assimilado
Dou fé entanto parecer
Raras vezes alcançado
O filho com o pai porque
Herdeiro sem ter herdado

Não nega neguim negão
Nem negão nega neguim

Com idêntica energia
Assim tão aparentado
Genoma nenhum faria
Se no pai do filho dado
O filho já não dado ia
Concebido no esperado

Não nega neguim negão
Nem negão nega neguim

Negará neguim negão?
Neguim negão nega não
Pois neguim negão será
E negão, neguim gagá



quinta-feira, 17 de maio de 2012

MACHADO ROSA CUNHA (Ema Bessar Viana)

o criança literatura rosa
e machado o velho dela prosa
o ser tão tão de dentro rosa cunha
e euclides o de fora testemunha

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

METAMORFOSE (Ema Bessar Viana)

a ideia lhe acorreu
quis vesti-la com palavra
pôs-se inteiro na tarefa
fez não fez
palavra por palavra
da ideia outra coisa
que a palavra não transporta

t
r
a
n
s

aborda
aporta


aborta
a
i
d
e
i
a

e daí
de uma ideia nova
aí é dia

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quarta-feira, 8 de junho de 2011

OS BAMBAS (Ema Bessar Viana)

nem
osama
a bomba
usa

nem
os ama
o bambo
obama

os bambas

usamam
abusamam
ossamam
men

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domingo, 22 de maio de 2011

ESCRITURA (Ema Bessar Viana)

Para Tércia Montenegro
crítico desabuso
o texto dela
equilíbrio
de ditos
de por dizeres
texto justa-medida

é esta
a sua escrita

não apuro formal
nem excelir de conteúdo
mas o com mestria
poética extemporânea

tem sabor a sua pena
à qual devoto bênção
humilde e celebrante

ela é
a quem
muito mais além
no quando
ela erra
ninguém

mas

ela nutre
na vertigem
da escrita
que ela erra
no dentro do dentro dela
alguém

salve, salve!

salve a palavra dela
palavra que é
no onde
ela duela
com o do eu
do ela mesma!

salve, salve!

celebro
o texto ela
anverso
do ela texto

-

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O GATO (Ema Bessar Viana)

Indiferente

O gato
Melisma o silêncio
Reticencia o tempo
Agudiza o abismo
No mover-se

Indiferente

Seu olhar
Ri sinistro
Do estarmos
Entupidos de nada
E bastante comovidos

Indiferente

Seu dorso
Eriçado
Esfingia-se
Dócil e agressivo
Mas ainda

Indiferente

Seu rabo
Perscrutante
Conecta
Suprarrealidades
De borboleta e colibri

Indiferente

-

terça-feira, 9 de novembro de 2010

(IN)DEFINIÇÃO (Ema Bessar Viana)

Para Garcia
Constróis pontes de luz para as ilhas
Que há muito te descobriste ser.
Plurimorficamente te encruzilhas
Em vias de dever e de querer.

Em cada novo ponto da estrada,
Apresenta-se audaciosa ante ti
Outra sempre tenaz encruzilhada,
A que tua resposta é só: "resisti(r)".

Daí serem diversos os garcias.
No mínimo um que cotidiano age
Vivendo a vida a que o outro reage.

Adivinhar qual no correr dos dias
É aquele com o qual se interage...
Ah! Isto é grande e sacana sacanage.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

CABO VERDE BRASIL (Ema Bessar Viana)

Sólidas pontes imateriais
Ergueram-se por sobre o oceano
Ligando dois povos que, de ano em ano,
Vão se tornando menos desiguais.

Uma mesma disposição os anima:
A de abolir relações verticais,
A de que entre homem e homem nunca mais
Viceje qualquer formação que oprima.

Do elevado propósito que os guia
Reúne-os igualmente a Fortaleza:
Ter em mira realizar algum dia,

Irmanado na língua portuguesa,
O quinto império de um povo-alegria
Que viva em plenitude a morabeza.

-

terça-feira, 15 de junho de 2010

PRESENÇA (Ema Bessar Viana)

É do perfume que exalas
Quando de vista te perco
Que tua presença se faz.

No esboçar-te a imagem
Âncora-perfume te ergo
Para os meus olhos de cais.

É quando toda em olores
Em vivo e vivo em cores
Tua presença fugaz.


TARDE AZUL (Ema Bessar Viana)

vem, tarde azul,
desmesura
do outrora menino
vadio e sem ninho,
não te recuses a pousar

vem, tarde azul,
o adulto te quer
de novo
viver
e em ti
re
pousar


ESTALIDO NA NOITE (Ema Bessar Viana)

A Mirko Élvis
Meu primo morreu. 
Imagino com que espanto 
Ficou traspassado pela bala do revólver 
De olho vidrado no evento.
Filho e mulher ficaram sem 
Com o tiro do revólver. 
Sabe lá em que transe, 
Com que imagens animado 
O revólver na aventura? 
Adrenalina no metal. 
Foi-se meu primo sem 
Com o tiro do revólver.

-

NA TAL TERRA (Ema Viana)

Na
tal terra
da boa vontade,
é sempre encontro
de diferenças, sem medo,
sem ortodoxias, sem pretensões
de qualquer altura.
Na tal terra da esperança,
é permitido viver pela graça do simples viver,
com o viver do outro.
Na tal terra da comunhão,
homem não julga homem,
ama assim pelo só exercício de amar.
Na tal terra da harmonia,
tudo é música a concertar almas reféns da nostalgia da perfeição.
Na tal terra da bem-aventurança,
 grassa plena a fraternidade universal.
Na tal terra da consagração,
o agora instante de suave e doce congraçamento
q
u
e
r
-
s
e
eternizado.


-

sábado, 10 de abril de 2010

ADOÇÃO (Ema Viana)

Para Mônica, Daniel e William

Testemunho dou de feliz encontro
Entre dois meninos e uma mulher
Que a cumprirem o que o destino quer
Convergiram rotas a um mesmo ponto.

Os três viviam o momento certo
De unirem-se em rara laqueadura.
Negaram então o espaço que enclausura
E fundiram-se por ser pouco o perto.

Não queriam um do outro só estar ao lado
Pois que cada um andava descontente
E um do outro sabiam-se dependente.

Um querer estar juntamalgamado
Fez ver que seria enfim acertado
Darem-se uns aos outros por presente.
-

domingo, 28 de março de 2010

OFÍCIO (Ema Viana)

Para Crisca

parece quando falas
que vens de terras longínquas
tens uma certa linguagem
entrecruzar de línguas

falas do que falas
como quem cala
segredos
de faca
de ponta
responsável bisturi
de corte preciso
conciso

tua palavra somato-resvala
arde na epiderme
rasga carne
quebra ossos
tua palavra não cala
traspassa

de tantas línguas que dizes
por estrangeira a tua fala
tua palavra
trapaça

aprendiz das línguas que falas
mais que aprendiz
me deixo fazer nas palavras
que lavras

como falas
o que falas
agora
o falo

MERATRIZ



PERFEIÇÃO (Ema Viana)

no dentro e no fora de si mesmo
o ovo impressiona
no que tem de acabado
o ovo não tem pontas
no ser ovo ovalado
carne e osso
calcificados
o ovo
é
nada mais que
ovo
mais que nada
ovo
até no seu escrito


sábado, 27 de fevereiro de 2010

A PALAVRA REDIVIVA (Ema Viana)


Quando zumbem e silvam e ciciam
Na substância amorfa dos ruídos,
As palavras-som sulcam seus sentidos
Em sentidos outros que sentenciam.

Do curso melódico e circular
As palavras-som à cadeia assomam
Como forma de sonidos que a domam
Quando o fluxo-tempo se faz cortar.

Mas se a extensão da folha de papel
Torna-se o novo campo de batalha
E delas o sônico efeito falha,

Eis que sem verterem-se em ouropel
E dando provas de desembaraço
As palavras-som exploram o espaço.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

ANATOMIA DO MONÓLOGO (José Paulo Paes)

ser ou não ser ?
er ou não er ?
r ou não r ?
ou não ?
onã?


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

PASSAGEIRO (Ema Viana)

Sai da casca
Larga o todo-dia-tudo-igual
Pára para não encontrar-te em confusão
De ser balança-de-dois-pratos
E viver a pesar a pesar apesar
O mundo não é um armazém
A despeito do muito que há em comum
E tu não vales o que o gato enterra
E queres dar-te importância
Colocando-te acima da ordinária existência
Não és sequer conhecedor de ti mesmo
E vens pretensioso dizer que me conheces
Deixa-te, isto sim, afogar nas sujas águas do cocó
Ou pula de um alto edifício do centro da cidade

Não encontras explicações, bem o sei
Mas também não há quem as encontre
Embriaga-te o curso das coisas
O fluir de tudo, sempiterno
Enquanto a tua alma se dilacera
E o teu corpo se deteriora
Continua
O correr das águas dos rios
O mar monotonamente vem despejar-se
Nas areias tantas de tantas praias
Dia e noite se sucedem
Continua o riso o choro
O amor o ódio o belo o feio
Deus e o diabo
Continuam


domingo, 1 de novembro de 2009

UTILITARISMO (Ema Viana)

No mercado sócio-emotivo,
Exponho meu coração.
Leiloá-lo, eis seu uso.
Ele: torto parafuso.


-

domingo, 25 de outubro de 2009

BALADA DE UM ESQUISOFRÊNICO MEGALÔMANO (Ema Viana)


os astros me vendo passar
cochichavam
interjectivos

"é aquele
aquele lá
pretensão a dele
querer irradiar luz semelhante à nossa
coitado pobre coitado"

também as trevas me vendo passar
"obscuro
fogo-fátuo

sim 
mas
tão pretensioso
pensa o vazio e é tão cheio
não é dos nossos"

solucionar-me no intermédio
buscando sempre
equilibar-me entre

I M P O S S Í V E I S


-

AMEAÇA (Ema Viana)

Não! Já não sei se mereço
Tanto tudo o que a ti peço
Mas aqui e agora confesso
Não me faças do vão sonho
Cessar o curso risonho
Que sou capaz e te esqueço

-

FILHO (Ema Viana)

as palavras falam do inessencial.
não há porquê nem onde, quando ou como.
é no atemporal espaço horizontal dos abraços,
no sem-razão,
onde todo o nosso ser
objetualizável,
que sou você, meu filho,
carne estrangeira,
e habito o não-ser
que vai de mim para você.

-

BEIJO (Ema Viana)

que doce beijo 
em ti eu vejo 
vejo tantas coisas em ti 
o maior ensejo 
de todo o meu desejo 
vir-se a cumprir 
até vejo em ti
-

sábado, 24 de outubro de 2009

CONSCIÊNCIA (Ema Viana)


Saber queria de que modo se adensa
no dentro informe de toda gente
coisa assim concreta e tão presente
que é o pensamento que a si se pensa;

o pensamento que de si é o reflexo,
que reintegra do vivido a cadena,
e que incontinenti nos condena
ao fora de nós mesmos já sem nexo;

o pensamento que ordena a persona,
que estanca a existência fugidia
e faz a identidade vir à tona,

mas que ato contínuo nos exilia
em terreno ermo e nos abandona
ser sem Ser, tão-só devir... Eu queria.



sábado, 3 de outubro de 2009

PROCURA (Ema Viana)

Súbito toma-me desejo insano
De te ver. E a tua, minh'alma reclama.
Quer te ter aqui quem a ti tanto ama,
Quem contigo sonha há já um ano.

Se tanto amar, amor, não for humano,
A mim, destruir-me há de ardente chama.
Rogo-te: escuta e atende a voz que clama,
Retém-me c'os olhos o olhar cigano.

Meu sonho, deixa-o fluir lentamente,
Permita-me que siga a procurar-te,
Hoje e sempre, sim, incansavelmente,

Em todos os lugares, por toda parte.
E um dia quem sabe esta busca insistente
Finde e queira Deus que por encontrar-te.

-

FILHA (Ema Viana)

Coriscaste no negrume de um céu,
Promessa de luz a romper o véu
Das noites fundas que a vida era
Naquela tarda baça primavera.

Crescendo teu brilho foi e por encanto
Tomou os espaços todos. Entretanto,
Havia negro um ponto resistente
A quem contra a barra dele tente.

Então sem muito empenho o presente
Daquele que era já um quase-incréu,
Foste entretecendo suavemente

E num hoje similar a um antecéu
Coabitamos sem o renitente
Negrume por força do teu cinzel.

-

CÁRCERE (Ema Viana)

Crer no etéreo, em fadas, ninfas e gnomos,
Na dura mão do inexorável fado,
Que o caminho já nos deu... Certo ou errado?
Toda dúvida de que feito fomos.

Nos deuses todos do Olimpo onde pomos
O nosso sobe-e-desce projetado.
E mais: crer um dia ver saciado
O desejo de infinito que hoje somos.

Crer na nobre medieval missão
E nos cavaleiros do Grande Rei
Que viviam o Graal a procurar.

Ver-me preferia nesta ilusão
Enfim consciente de que escapei
Do exíguo cárcere de pensar.

-

Caetano Veloso (Phono 73)




Um bom exemplo do que é texto sincrético, para cuja elaboração concorre um cojunto de linguagens que se imbricam de modo a criar um efeito de sentido geral, que dá unidade ao todo.

-

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

LÓGICA INFANTIL (Ema Viana)

- hoje é amanhã!
- hoje é amanhã!
- hoje é amanhã!
Bia cobra a promessa de ontem.

- amanhã foi ontem!
- amanhã foi ontem!
- amanhã foi ontem!
Alice, a de anteontem.


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

ESTAÇÕES (Ema Viana)

deram em nada as primaveras que alegrei
as alegrias primaverarei
para depois outonarem-se
virão inverno e verão
e outras alegrias primaveradas
hão de outornar-se
são as estações do meu ser temporal
sucedem-se sem descanso
nos anos vivicíclicos

POEMA DES-CARTESIANO (Ema Viana)

a verdade é uma só 
e quem a disse não mentiu 
é o homem em si um nó 
de dúvidas que a dúvidas se uniu
triturado em pedra mó

-

GEOMETRIA DO MERGULHO (Ema Viana)

a

v
e
r
t
i
c
a
l
i
d
a
d
e


d
a


j
a
n
e
l
a


c
o
n
v
i
d
o
u
-
o
a horizontar-se
.

domingo, 30 de agosto de 2009

TROCA (Ema Viana)

os homens que a cercam
trazem a flor do sexo
em franca exposição
prometem-lhe
algum regalo
amor etéreo
devoção
em troca
só lhe dão
solidão



segunda-feira, 20 de julho de 2009

-

A arte, de um modo geral, é equilíbrio de excessos e insuficiências. O artista do "mais" opera recessivamente com o "menos", ao passo que o do "menos" presta contas ao "mais". E ambos buscam o efeito sensível da modulação destes contrários. O grande artista cria equilíbrios instáveis que tensionam excessos e insuficiências de toda ordem e produzem "buracos no não" gerando os possíveis impossíveis e os impossíveis possíveis. O grande artista fura o cerco e nos conduz sem dizer para onde nem responder por quê. O grande artista se funda a si mesmo por seu fazer, e este nos co(n)funda na fruição que em nós nos inaugura.

-

sábado, 18 de julho de 2009

PAVLOVIANA (José Paulo Paes)

a comida

a sineta

a saliva

a sineta

a saliva

a saliva

a saliva

a saliva

a saliva


o mistério

o rito

a igreja

o rito

a igreja

a igreja

a igreja

a igreja

a igreja


a revolta

a doutrina

o partido

a doutrina

o partido

o partido

o partido

o partido

o partido


a emoção

a idéia

a palavra

a idéia

a palavra

a palavra

a palavra

a palavra

a palavra



Um impossível possível: em quatro segmentos, cada qual composto por três "estrofes" de três versos, com sintagmas nominais simples (artigo + nome substantivo), o autor fala dos automatismos (reflexos condicionados) nas dimensões física, espiritual, política e estética.


Guimarães Rosa (o pensador e o artista)

O poder de criar realidades pela linguagem e/ou o pressuposto de existência na lógica exemplarmente evidencidados num trecho do prefácio de Tutaméia.

Siga-se, para ver, o conhecidíssimo figurante, que anda pela rua, empurrando sua corrocinha de pão, quando alguém lhe grita: - "
Manuel, corre a Niterói, tua mulher está feito louca, tua casa está pegando fogo!..." Larga o herói a carrocinha, corre, voa, vai, toma a barca, atravessa a Baía quase... e exclama: "- Que diabo! eu não me chamo Manuel, não moro em Niterói, não sou casado e não tenho casa...".

segunda-feira, 13 de julho de 2009

TAMBOR (Ema Viana)

a média não anuncia
mas os tambores renunciam
aos excessos da alegria

o tambor já foi triste
pulsação
falar percussivo do coração

já foi banzo
cantou tristezas e alegrias
falou com deuses
festejou chorou esqueceu

o tambor quer
as antigas suas linguagens
quer sair
do popular tambor pra pular para parolar
noutras linguagens
do percussivo coração


CALEIDOSCÓPIO (Ema Viana)

fragmentei-me em gostares
meu coração dividido
caleidoscopizou-se ainda mais
meus pais têm um naco
outro anda em meu peito
pedaços nas mãos de amigos
amores outros detêm
grande parte porém
putrefaz-se morta nas ruas


LUA E CHÃO (Ema Viana)

Para os coiotes
olhos postos na lua
passeava sonhos fabulosos
viagens intergalácticas
suaves voos de pássaros
braços de bem-amada
a inteiro envolver-me
num acalanto sem par

súbito
os olhos me vão
da lua ao chão
o pé direito
tenho-o imerso
em ignorada substância
de amarelo aspecto

pisei no cocô
pisei no cocô
e não sei que fazer
água por perto não vejo
não vejo pano ou sabão
com que me possa limpar

pisei no cocô
enquanto sonhava
pisei no cocô
e estava descalço
pisei no cocô
e não sei que fazer

amiga me diga
amputo este pé
ou pisando na merda
aprendo a viver?


FARTA POESIA (Ema Viana)

farta poesia
no poema
brincadeiras de pensar
sinestesias
metaforizar
maresia
dói e corrói
o ferro
de todo dia
perartice do poema
farta poesia


domingo, 17 de maio de 2009

IMIGRAÇÃO (Ema Viana)

Vez no longe sudeste
O homem antes nordeste
Em desaprumo em desatino
Vai viver sudestino.

CIRURGÊNCIA (Ema Viana)

À sombra de fartos e generosos galhos
De uma frondosa mangueira
Menino e menina brincavam
Brincadeira de faz-de-conta

Ele cuidava diligente
Da menina paciente
Enquanto 
Fármacos penetrantes
Recendiam
No preparo da hirta cânula
E da mucosa vaporosa
Para a infusão

Do êxtase do tato
No ato do regalo
Do conhecerem-se
De repente
Despertaram

Adultos intervieram em delicada cirurgência
Eram deles os pais
E sem bem saber por quê
Menino e menina levaram
Uma sova de não esquecer jamais

-

BURACO NEGRO (Ema Viana)

foi tudo tão sem fundo
que o oco do mundo
nos tragou

foi todo tão luminoso
o caos gozoso
que brilhamos

foi tão oco o todo breu
que o brilho esmaeceu
e nos insulamos

foi enfim tudo tão sem fim
que agora em mim
é sempre amanheceu

-

SONETO FALHO ou SÓ NOTO DOIS QUARTETOS (Ema Viana)

não atino a que deva atribuir
o excêntrico gosto por sonetar
mas sei que esta forma particular
trasmuta sublimando o que vivi

dá-lhe o acabamento necessário
extrai do vivido a forma pura
assim como o escultor a escultura
faz nascer do material precário.

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sexta-feira, 3 de abril de 2009

ALFA & ÔMEGA (Dimas Carvalho)

A diferença toda está aqui:
O homem vivo é caveira que chora,
O homem morto é caveira que ri.


segunda-feira, 23 de março de 2009

SONETO MONOSSILÁBICO (Mário Quintana)

Quem
Te

Bem

Sem
Que

Nem

Um
Ai:
Pum.

Cai.
Ah!
Ah!


sexta-feira, 20 de março de 2009

O QUERERES (Caetano Veloso)

onde queres revólver sou coqueiro

e onde queres dinheiro sou paixão

onde queres descanso sou desejo

e onde sou desejo queres não

e onde não queres nada nada falta

e onde voas bem alta eu sou o chão

e onde pisas o chão minha alma salta

e ganha liberdade na amplidão


onde queres família sou maluco

e onde queres romântico, burguês

onde queres leblon sou pernambuco

e onde queres eunuco, garanhão

e onde queres o sim e o não, talvez

e onde vês eu não vislumbro razão

onde queres o lobo eu sou o irmão

e onde queres cowboy eu sou chinês


ah! bruta flor do querer

ah! bruta flor bruta flor


onde queres o ato eu sou o espírito

e onde queres ternura eu sou tesão

onde queres o livre, decassílabo

e onde buscas o anjo sou mulher

onde queres prazer sou o que dói

e onde queres tortura, mansidão

onde queres um lar revolução

e onde queres bandido sou herói


eu queria querer-te e amar o amor

construir-nos dulcíssima prisão

e encontrar a mais justa adequação

tudo métrica e rima e nunca dor

mas a vida é real e de viés

e que cilada o amor me armou

eu te quero (e não queres) como sou

não te quero (e não queres) como és


ah! bruta flor do querer

ah! bruta flor bruta flor


onde queres comício, flipper-vídeo

e onde queres romance, rock’n’roll

onde queres a lua eu sou o sol

onde a pura natura, o inseticídio

e onde queres mistério eu sou a luz

onde queres um canto, o mundo inteiro

onde queres quaresma, fevereiro

e onde queres coqueiro sou obus


o quereres e o estares sempre a fim

do que em mim é de mim tão desigual

faz-me querer-te bem, querer-te mal

bem a ti, mal ao quereres assim

infinitivamente pessoal

e eu querendo querer-te sem ter fim

e, querendo-te, aprender o total

do querer que há e do que nãoem mim.