terça-feira, 24 de agosto de 2010
CABO VERDE BRASIL (Ema Bessar Viana)
Ergueram-se por sobre o oceano
Ligando dois povos que, de ano em ano,
Vão se tornando menos desiguais.
Uma mesma disposição os anima:
A de abolir relações verticais,
A de que entre homem e homem nunca mais
Viceje qualquer formação que oprima.
Do elevado propósito que os guia
Reúne-os igualmente a Fortaleza:
Ter em mira realizar algum dia,
Irmanado na língua portuguesa,
O quinto império de um povo-alegria
Que viva em plenitude a morabeza.
-
terça-feira, 15 de junho de 2010
PRESENÇA (Ema Bessar Viana)
Quando de vista te perco
Que tua presença se faz.
No esboçar-te a imagem
Âncora-perfume te ergo
Para os meus olhos de cais.
É quando toda em olores
Em vivo e vivo em cores
Tua presença fugaz.
TARDE AZUL (Ema Bessar Viana)
desmesura
do outrora menino
vadio e sem ninho,
não te recuses a pousar
vem, tarde azul,
o adulto te quer
de novo
viver
e em ti
re
pousar
ESTALIDO NA NOITE (Ema Bessar Viana)
NA TAL TERRA (Ema Viana)
tal terra
da boa vontade,
é sempre encontro
de diferenças, sem medo,
sem ortodoxias, sem pretensões
de qualquer altura.
Na tal terra da esperança,
é permitido viver pela graça do simples viver,
com o viver do outro.
Na tal terra da comunhão,
homem não julga homem,
ama assim pelo só exercício de amar.
Na tal terra da harmonia,
tudo é música a concertar almas reféns da nostalgia da perfeição.
Na tal terra da bem-aventurança,
grassa plena a fraternidade universal.
Na tal terra da consagração,
o agora instante de suave e doce congraçamento
q
u
e
r
-
s
e
eternizado.
-
sábado, 10 de abril de 2010
ADOÇÃO (Ema Viana)
De unirem-se em rara laqueadura.
Negaram então o espaço que enclausura
E fundiram-se por ser pouco o perto.
Pois que cada um andava descontente
E um do outro sabiam-se dependente.
Fez ver que seria enfim acertado
Darem-se uns aos outros por presente.
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domingo, 28 de março de 2010
OFÍCIO (Ema Viana)
que vens de terras longínquas
tens uma certa linguagem
entrecruzar de línguas
falas do que falas
como quem cala
segredos
de faca
de ponta
responsável bisturi
de corte preciso
conciso
tua palavra somato-resvala
arde na epiderme
rasga carne
quebra ossos
tua palavra não cala
traspassa
de tantas línguas que dizes
por estrangeira a tua fala
tua palavra
trapaça
aprendiz das línguas que falas
mais que aprendiz
me deixo fazer nas palavras
que lavras
como falas
o que falas
agora
o falo
MERATRIZ
PERFEIÇÃO (Ema Viana)
o ovo impressiona
no que tem de acabado
o ovo não tem pontas
no ser ovo ovalado
carne e osso
calcificados
o ovo
é
nada mais que
ovo
mais que nada
ovo
até no seu escrito
sábado, 27 de fevereiro de 2010
A PALAVRA REDIVIVA (Ema Viana)
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
PASSAGEIRO (Ema Viana)
Larga o todo-dia-tudo-igual
Pára para não encontrar-te em confusão
De ser balança-de-dois-pratos
E viver a pesar a pesar apesar
O mundo não é um armazém
A despeito do muito que há em comum
E tu não vales o que o gato enterra
E queres dar-te importância
Colocando-te acima da ordinária existência
Não és sequer conhecedor de ti mesmo
E vens pretensioso dizer que me conheces
Deixa-te, isto sim, afogar nas sujas águas do cocó
Ou pula de um alto edifício do centro da cidade
Não encontras explicações, bem o sei
Mas também não há quem as encontre
Embriaga-te o curso das coisas
O fluir de tudo, sempiterno
Enquanto a tua alma se dilacera
E o teu corpo se deteriora
Continua
O correr das águas dos rios
O mar monotonamente vem despejar-se
Nas areias tantas de tantas praias
Dia e noite se sucedem
Continua o riso o choro
O amor o ódio o belo o feio
Deus e o diabo
Continuam
domingo, 1 de novembro de 2009
UTILITARISMO (Ema Viana)
Exponho meu coração.
Leiloá-lo, eis seu uso.
Ele: torto parafuso.
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domingo, 25 de outubro de 2009
BALADA DE UM ESQUISOFRÊNICO MEGALÔMANO (Ema Viana)
os astros me vendo passar
cochichavam
interjectivos
"é aquele
aquele lá
pretensão a dele
querer irradiar luz semelhante à nossa
coitado pobre coitado"
também as trevas me vendo passar
"obscuro
fogo-fátuo
sim
tão pretensioso
pensa o vazio e é tão cheio
não é dos nossos"
solucionar-me no intermédio
buscando sempre
I M P O S S Í V E I S
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AMEAÇA (Ema Viana)
Tanto tudo o que a ti peço
Mas aqui e agora confesso
Não me faças do vão sonho
Cessar o curso risonho
Que sou capaz e te esqueço
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FILHO (Ema Viana)
não há porquê nem onde, quando ou como.
é no atemporal espaço horizontal dos abraços,
no sem-razão,
onde todo o nosso ser
carne estrangeira,
e habito o não-ser
que vai de mim para você.
-
BEIJO (Ema Viana)
sábado, 24 de outubro de 2009
CONSCIÊNCIA (Ema Viana)
sábado, 3 de outubro de 2009
PROCURA (Ema Viana)
De te ver. E a tua, minh'alma reclama.
Quer te ter aqui quem a ti tanto ama,
Quem contigo sonha há já um ano.
Se tanto amar, amor, não for humano,
A mim, destruir-me há de ardente chama.
Rogo-te: escuta e atende a voz que clama,
Retém-me c'os olhos o olhar cigano.
Meu sonho, deixa-o fluir lentamente,
Permita-me que siga a procurar-te,
Hoje e sempre, sim, incansavelmente,
Em todos os lugares, por toda parte.
E um dia quem sabe esta busca insistente
Finde e queira Deus que por encontrar-te.
-
FILHA (Ema Viana)
Promessa de luz a romper o véu
Das noites fundas que a vida era
Naquela tarda baça primavera.
Crescendo teu brilho foi e por encanto
Tomou os espaços todos. Entretanto,
Havia negro um ponto resistente
A quem contra a barra dele tente.
Então sem muito empenho o presente
Daquele que era já um quase-incréu,
Foste entretecendo suavemente
E num hoje similar a um antecéu
Coabitamos sem o renitente
Negrume por força do teu cinzel.
-
CÁRCERE (Ema Viana)
Na dura mão do inexorável fado,
Que o caminho já nos deu... Certo ou errado?
Toda dúvida de que feito fomos.
Nos deuses todos do Olimpo onde pomos
O nosso sobe-e-desce projetado.
E mais: crer um dia ver saciado
O desejo de infinito que hoje somos.
Crer na nobre medieval missão
E nos cavaleiros do Grande Rei
Que viviam o Graal a procurar.
Ver-me preferia nesta ilusão
Enfim consciente de que escapei
Do exíguo cárcere de pensar.
-
Caetano Veloso (Phono 73)
Um bom exemplo do que é texto sincrético, para cuja elaboração concorre um cojunto de linguagens que se imbricam de modo a criar um efeito de sentido geral, que dá unidade ao todo.
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quinta-feira, 17 de setembro de 2009
LÓGICA INFANTIL (Ema Viana)
- hoje é amanhã!
- hoje é amanhã!
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
ESTAÇÕES (Ema Viana)
as alegrias primaverarei
para depois outonarem-se
virão inverno e verão
e outras alegrias primaveradas
hão de outornar-se
são as estações do meu ser temporal
sucedem-se sem descanso
nos anos vivicíclicos
POEMA DES-CARTESIANO (Ema Viana)
domingo, 30 de agosto de 2009
TROCA (Ema Viana)
trazem a flor do sexo
em franca exposição
prometem-lhe
algum regalo
amor etéreo
devoção
em troca
só lhe dão
solidão
segunda-feira, 20 de julho de 2009
A arte, de um modo geral, é equilíbrio de excessos e insuficiências. O artista do "mais" opera recessivamente com o "menos", ao passo que o do "menos" presta contas ao "mais". E ambos buscam o efeito sensível da modulação destes contrários. O grande artista cria equilíbrios instáveis que tensionam excessos e insuficiências de toda ordem e produzem "buracos no não" gerando os possíveis impossíveis e os impossíveis possíveis. O grande artista fura o cerco e nos conduz sem dizer para onde nem responder por quê. O grande artista se funda a si mesmo por seu fazer, e este nos co(n)funda na fruição que em nós nos inaugura.
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sábado, 18 de julho de 2009
PAVLOVIANA (José Paulo Paes)
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Um impossível possível: em quatro segmentos, cada qual composto por três "estrofes" de três versos, com sintagmas nominais simples (artigo + nome substantivo), o autor fala dos automatismos (reflexos condicionados) nas dimensões física, espiritual, política e estética.
Guimarães Rosa (o pensador e o artista)
Siga-se, para ver, o conhecidíssimo figurante, que anda pela rua, empurrando sua corrocinha de pão, quando alguém lhe grita: - "Manuel, corre a Niterói, tua mulher está feito louca, tua casa está pegando fogo!..." Larga o herói a carrocinha, corre, voa, vai, toma a barca, atravessa a Baía quase... e exclama: "- Que diabo! eu não me chamo Manuel, não moro em Niterói, não sou casado e não tenho casa...".
segunda-feira, 13 de julho de 2009
TAMBOR (Ema Viana)
mas os tambores renunciam
aos excessos da alegria
o tambor já foi triste
pulsação
falar percussivo do coração
já foi banzo
cantou tristezas e alegrias
falou com deuses
festejou chorou esqueceu
o tambor quer
as antigas suas linguagens
quer sair
do popular tambor pra pular para parolar
noutras linguagens
do percussivo coração
CALEIDOSCÓPIO (Ema Viana)
meu coração dividido
caleidoscopizou-se ainda mais
meus pais têm um naco
outro anda em meu peito
pedaços nas mãos de amigos
amores outros detêm
grande parte porém
putrefaz-se morta nas ruas
LUA E CHÃO (Ema Viana)
passeava sonhos fabulosos
viagens intergalácticas
suaves voos de pássaros
braços de bem-amada
a inteiro envolver-me
num acalanto sem par
súbito
os olhos me vão
da lua ao chão
o pé direito
tenho-o imerso
em ignorada substância
de amarelo aspecto
pisei no cocô
pisei no cocô
e não sei que fazer
água por perto não vejo
não vejo pano ou sabão
com que me possa limpar
pisei no cocô
enquanto sonhava
pisei no cocô
e estava descalço
pisei no cocô
e não sei que fazer
amiga me diga
amputo este pé
ou pisando na merda
aprendo a viver?
FARTA POESIA (Ema Viana)
brincadeiras de pensar
sinestesias
metaforizar
maresia
dói e corrói
o ferro
de todo dia
perartice do poema
farta poesia
domingo, 17 de maio de 2009
IMIGRAÇÃO (Ema Viana)
O homem antes nordeste
Em desaprumo em desatino
Vai viver sudestino.
CIRURGÊNCIA (Ema Viana)
Recendiam
No
De repente
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BURACO NEGRO (Ema Viana)
que o oco do mundo
nos tragou
foi todo tão luminoso
o caos gozoso
que brilhamos
foi tão oco o todo breu
que o brilho esmaeceu
e nos insulamos
foi enfim tudo tão sem fim
que agora em mim
é sempre amanheceu
-
SONETO FALHO ou SÓ NOTO DOIS QUARTETOS (Ema Viana)
o excêntrico gosto por sonetar
mas sei que esta forma particular
trasmuta sublimando o que vivi
dá-lhe o acabamento necessário
extrai do vivido a forma pura
assim como o escultor a escultura
faz nascer do material precário.
-
sexta-feira, 3 de abril de 2009
ALFA & ÔMEGA (Dimas Carvalho)
O homem vivo é caveira que chora,
O homem morto é caveira que ri.
segunda-feira, 23 de março de 2009
sexta-feira, 20 de março de 2009
O QUERERES (Caetano Veloso)
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
ah!
ah!
e
e
e
e
construir-nos dulcíssima
e
e
ah!
ah!
e
e
e
o
do
faz-me querer-te
e
e, querendo-te,