domingo, 17 de maio de 2009

IMIGRAÇÃO (Ema Viana)

Vez no longe sudeste
O homem antes nordeste
Em desaprumo em desatino
Vai viver sudestino.

CIRURGÊNCIA (Ema Viana)

À sombra de fartos e generosos galhos
De uma frondosa mangueira
Menino e menina brincavam
Brincadeira de faz-de-conta

Ele cuidava diligente
Da menina paciente
Enquanto 
Fármacos penetrantes
Recendiam
No preparo da hirta cânula
E da mucosa vaporosa
Para a infusão

Do êxtase do tato
No ato do regalo
Do conhecerem-se
De repente
Despertaram

Adultos intervieram em delicada cirurgência
Eram deles os pais
E sem bem saber por quê
Menino e menina levaram
Uma sova de não esquecer jamais

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BURACO NEGRO (Ema Viana)

foi tudo tão sem fundo
que o oco do mundo
nos tragou

foi todo tão luminoso
o caos gozoso
que brilhamos

foi tão oco o todo breu
que o brilho esmaeceu
e nos insulamos

foi enfim tudo tão sem fim
que agora em mim
é sempre amanheceu

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SONETO FALHO ou SÓ NOTO DOIS QUARTETOS (Ema Viana)

não atino a que deva atribuir
o excêntrico gosto por sonetar
mas sei que esta forma particular
trasmuta sublimando o que vivi

dá-lhe o acabamento necessário
extrai do vivido a forma pura
assim como o escultor a escultura
faz nascer do material precário.

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sexta-feira, 3 de abril de 2009

ALFA & ÔMEGA (Dimas Carvalho)

A diferença toda está aqui:
O homem vivo é caveira que chora,
O homem morto é caveira que ri.


segunda-feira, 23 de março de 2009

SONETO MONOSSILÁBICO (Mário Quintana)

Quem
Te

Bem

Sem
Que

Nem

Um
Ai:
Pum.

Cai.
Ah!
Ah!


sexta-feira, 20 de março de 2009

O QUERERES (Caetano Veloso)

onde queres revólver sou coqueiro

e onde queres dinheiro sou paixão

onde queres descanso sou desejo

e onde sou desejo queres não

e onde não queres nada nada falta

e onde voas bem alta eu sou o chão

e onde pisas o chão minha alma salta

e ganha liberdade na amplidão


onde queres família sou maluco

e onde queres romântico, burguês

onde queres leblon sou pernambuco

e onde queres eunuco, garanhão

e onde queres o sim e o não, talvez

e onde vês eu não vislumbro razão

onde queres o lobo eu sou o irmão

e onde queres cowboy eu sou chinês


ah! bruta flor do querer

ah! bruta flor bruta flor


onde queres o ato eu sou o espírito

e onde queres ternura eu sou tesão

onde queres o livre, decassílabo

e onde buscas o anjo sou mulher

onde queres prazer sou o que dói

e onde queres tortura, mansidão

onde queres um lar revolução

e onde queres bandido sou herói


eu queria querer-te e amar o amor

construir-nos dulcíssima prisão

e encontrar a mais justa adequação

tudo métrica e rima e nunca dor

mas a vida é real e de viés

e que cilada o amor me armou

eu te quero (e não queres) como sou

não te quero (e não queres) como és


ah! bruta flor do querer

ah! bruta flor bruta flor


onde queres comício, flipper-vídeo

e onde queres romance, rock’n’roll

onde queres a lua eu sou o sol

onde a pura natura, o inseticídio

e onde queres mistério eu sou a luz

onde queres um canto, o mundo inteiro

onde queres quaresma, fevereiro

e onde queres coqueiro sou obus


o quereres e o estares sempre a fim

do que em mim é de mim tão desigual

faz-me querer-te bem, querer-te mal

bem a ti, mal ao quereres assim

infinitivamente pessoal

e eu querendo querer-te sem ter fim

e, querendo-te, aprender o total

do querer que há e do que nãoem mim.